sábado, 25 de agosto de 2012

Entrevista a Joana Neto Lima

Blogger desde 2005 e uma das organizadoras da primeira participação portuguesa no Euro Steam Con,   Joana Neto Lima é a prova de que com força de vontade e coragem é possível abraçar projectos que muitos julgam impossível de realizar. Leitora ávida e fã de steampunk, Joana aceitou conversar com o blog "Uma Biblioteca em Construção" sobre o seu relacionamento com a literatura, sobre a sua paixão pela tecnologia a vapor e sobre o inédito evento que a cidade do Porto vai receber nos dias 29 e 30 de Setembro.

 

Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.) - Olá Joana e obrigada pela tua disponibilidade. Como surgiu a tua experiência enquanto blogger? 

Joana Neto Lima (J. N. L.) - Antes de mais obrigada pelo convite, e pela simpatia ;) 

Ora bem, segundo as más línguas a minha experiência como Blogger começou no longínquo ano de 2005, com um blog de fotografia, Fotograficamente Sentindo. Depois em 2009, após uns anos de ausência nasceu o Cantos Quebrados, um espaço de partilha pessoal das minhas experiências.


U. B. C. - Neste momento tens dois espaços, certo? O que os distingue?
J. N. L. - Sim, tenho dois espaços: o Cantos Quebrados e a Clockwork Portugal.
O Cantos Quebrados, neste momento está um bocadinho em suspenso, mas é um espaço mais pessoal, de partilha das minhas leituras, dos filmes que vejo, das minhas experiências (a compra do meu kindle, opiniões quanto a alguns assuntos que acho que preciso de partilhar umas quantas palavras, como os downloads ilegais, as compras online, etc).

A Clockwork Portugal, é primeiro e mais que tudo, a principal culpada por o Cantos Quebrados estar mais parado. ;) É a comunidade portuguesa de Steampunk que está a organizar a Euro Steam Con no Porto e gostei bastante de ter a oportunidade de juntamente com a Sofia Romualdo pegar neste projecto e criar algo tão original como a Clockwork Portugal.

U. B. C. - Como selecionas a informação que queres publicar?
J. N. L. - No Cantos Quebrados, como é um espaço mais pessoal, publico e falo das coisas que mais prazer me dão ou das coisas que mais me interessam.

Na Clockwork Portugal, a selecção de conteúdos é gerida com os restantes elementos da equipa (no início éramos apenas duas, eu e a Sofia Romualdo, recentemente juntou-se à equipa o André Nóbrega). Cada um fala daquilo que acha interessante, com um único critério - É steampunk? Se é, nem se pensa muito mais. :) - Por vezes gerimos a publicação dos artigos entre os três, para não repetir conteúdos nem publicar no mesmo dia, por exemplo. Já tinha colaborado para outros blogs colectivos e acho que uma colaboração activa entre todos os elementos é sem dúvida enriquecedor.

U. B. C. - Quais são os maiores prazeres que os teus espaços te dão?
J. N. L. - Ahh... Pergunta complicada :)
Um dos maiores prazeres de ser Blogger é sem dúvida o contacto com outros Bloggers, poder trocar ideias e conhecer pessoas com interesses idênticos aos nossos.
Ao longo destes anos de Blogger, tenho tido a oportunidade de travar conhecimento com pessoas interessantíssimas e que me ajudaram a aumentar os meus conhecimentos, a descobrir paixões (o meu amor pelo Steampunk cresceu exponencialmente depois de uma iniciativa entre Bloggers).

Uma das coisas que adoro, são iniciativas como esta por exemplo em que os Bloggers em vez de ficarem nos seus cantinhos, se juntam e interagem. Nos últimos tempos tenho assistido a iniciativas que promovem a colaboração entre-bloggers (debates, entrevistas, colaborações, Posts de Bloggers convidados, etc) que simplesmente adoro.

U. B. C. - Existem problemas significantes que já te tenham levado a pensar em desistir destas lides?
J. N. L. - Pois. Como em tudo, existe o lado bom e o lado menos bom.
Na minha experiência de Blogger, já me deparei com algumas experiências menos boas, mas que me ajudaram a crescer e a perceber algumas coisas que são feitas de forma menos correcta. Nunca pensei em desistir da Blogosfera, pois como já referi na questão anterior, encontrei demasiadas coisas positivas para, devido a este ou aquele problema, desistir.

Acredito que as minhas experiências me ajudaram a perceber a melhor forma de gerir e colaborar para trazer à vida o meu projecto mais recente, a Clockwork Portugal. O modelo colaborativo que nós temos na Comunidade, deriva directamente de uma experiência menos positiva na blogosfera. Como blog colectivo tem uma identidade própria, diferente das partes que o compõem, todas as ideias dos seus elementos são válidas, ponderadas e respeitadas e claro todos têm direito à validação do seu trabalho e esforço. Ahh, acima de tudo todos têm que se divertir. :)

U. B. C. - Achas que a internet veio alterar a relação das pessoas com os livros?
J. N. L. - Acho que sim. Acho que a internet e as redes sociais, como o Twitter, Facebook e o Goodreads, veio facilitar o acesso dos leitores à informação.
Falo por experiência própria quando afirmo que a internet e as redes sociais ajudam a aumentar os níveis de leitura e de desgraça económica. :)

Depois de uns anos afastada das lides cibernáuticas, e afastada mesmo das leituras (por causa da faculdade e também porque o dinheiro não é muito para quem é estudante), conheci primeiro o blog Estante de Livros, que me mostrou que existiam espaços totalmente dedicados às leituras e aos livros que se liam e publicavam por Portugal. A partir daí, sempre que precisava comprar um livro ou me dava vontade de ler mais qualquer coisa, consultava sempre esses espaços à procura de sugestões ou opiniões. Acredito que como eu, muitas pessoas já se aperceberam do potencial destes espaços (leitores e editores também), o que alterou algumas formas de publicitar livros e escolher a próxima leitura.

U. B. C. - Estás a ajudar a trazer o Euro Steam Con a Portugal. Como te envolveste nesse projeto?
J. N. L. - No final do ano passado eu, a White_lady do Este Meu Cantinho e a Telma Teixeira do Ler e Reflectir fizemos uma leitura temática dedicada ao Steampunk, foi um Outono Steampunk que rapidamente se estendeu ao Inverno, terminando com uma távola redonda no blog Ler e Reflectir - Só Ler Não Basta.
Em Fevereiro no Twitter uma pessoa partilhou o link da página da Euro Steam Con e perguntou o que eu achava. Como eu adoro meter as mãos ao trabalho, juntar pessoas e claro promover a cidade do Porto, nem pensei duas vezes.

U. B. C. -Quais são as tuas expectativas para o evento?
J. N. L. - No início quando enviei o email de intenções, pensei em fazer apenas um encontro nos dias da Convenção (29 e 30 de Setembro), algo muito simples com chá e escritores.

Mas rapidamente, a Euro Steam Con - Porto ganhou vapor e nunca mais a conseguimos parar. Como não existia uma plataforma activa para o Steampunk em Portugal, e como tal lacuna iria dificultar a divulgação do evento, eu e a Sofia decidimos criar a Comunidade Portuguesa de Steampunk, Clockwork Portugal para servir de apoio e plataforma de lançamento da primeiríssima convenção steampunk em terras lusas.

Apesar de ser um movimento emergente, sentimos que desde que pegamos neste projecto a comunidade se organizou e dinamizou. Temos tido muitas surpresas agradáveis e contamos com a casa cheia em Setembro.
Esperámos que se torne uma tradição e possamos repetir a ESC todos os anos. :)

U. B. C. -Está também a ser elaborado um Almanaque Steampunk para ser lançado durante o evento. Está a ser fácil levar este projeto adiante?
J. N. L. - O Almanaque é daquelas surpresas agradáveis que a Euro Steam Con e a Clockwork Portugal proporcionaram.
Fácil não digo, mas tem sido divertidíssimo trabalhar no Almanaque. :)

Devido ao facto, de ser algo diferente (geralmente vemos, revistas e antologias disto ou daquilo) nós receamos um pouco quanto ao número de submissões e de interessados, receios que foram rapidamente rebatidos pela onda de mobilização de vimos surgir pouco tempo depois da Call for Arms : Almanaque Steampunk.
Por isso, apesar dos nossos receios iniciais, o Almanaque Steampunk segue a todo o vapor para ser uma publicação que se distingue das outras, pela variedade de conteúdos e pelo conceito que procura explorar e divulgar.

U. B. C. -O que mais te fascina no Steampunk?
J. N. L. - Adoro a quase ausência de fronteiras, pois o steampunk é um bocado a exploração de tecnologias que já o foram com o twist que queremos, mas com steam. Claro que é um conceito inserido dentro dos géneros especulativos que todos conhecem melhor (fantástico e ficção-científica), mas aquele toque retro-futurista de máquinas e sociedades que nunca existiram puxa-me mesmo para dentro da história, para o meio da acção. Simplesmente adoro. :)

Fascina-me o visual de tudo o que é steampunk e nos últimos anos apareceram artistas que fazem trabalhos surpreendentes.

U. B. C. -Quais são as tuas referências do género?
J. N. L. - Hmmm, poderia dizer os nomes de autores “clássicos” mas não seria verdade! :)
Como a maioria das pessoas que aprecia o conceito steampunk, também eu comecei por gostar do aspecto de certos filmes e, sim, animes com que me cruzava (entre eles Fullmetal Alchemist, Last Exile, etc). Comecei a pesquisar e como sou uma leitora ávida, em pouco tempo chegaram-me às mãos livros steampunk que me agarraram rapidamente. Posso dizer que as minha referências são Meljean Brook(livros da série The Iron Seas), Hiromu Arakawa(Fullmetal Alchemist), Hayao Myiazaki (Nausicäa, Howl’s Moving Castle), Cherie Priest (Boneshaker) e mais recentemente comecei a explorar as antologias organizadas pelos Vandermeer.

1U. B. C. -A leitura sempre esteve muito presente na tua vida?
J. N. L. - Sim, desde pequenina. Eu desde muito cedo que manifestei um apego imenso aos livros. No Cantos Quebrados, e seguindo uma ideia da White_lady do Blog Este Meu Cantinho, publiquei um artigo em que de uma forma muito franca exponho a minha relação com os livros ao longo do tempo → http://cantosquebrados.blogspot.pt/2011/11/eu-e-os-livros.html

U. B. C. -Quais são as obras literárias que mais te marcaram?
J. N. L. - Os primeiros livros que tenho memória de ler, foram os livros da Enid Blyton dos Cinco e um livro de contos e fábulas que a minha avó tinha guardado da infância do meu pai. Foram marcantes, no sentido de terem sido esses os meus guias e mentores de uma paixão que molda um bocadinho toda a minha vida. :)

Tenho alguns livros que me marcaram muito e que me levaram a conhecer os meus géneros de eleição: Dune de Frank Herbert, O Sillmarillion de Tolkien, Trilogia de Sevenwaters de Juliet Marillier, O Principezinho de Saint-Exupéry, Alice no País das Maravilhas de Carroll e claro Harry Potter de JK Rowling :)

U. B. C. -Que livros gostavas de ver publicados em Portugal?
J. N. L. - A lista que práqui tenho :)
Vou-me cingir a alguns trabalhos steampunk que, devido às minhas explorações nesse campo tenho descoberto verdadeiras pérolas que ficaram por publicar ou se foram publicadas por cá, já foi há muito e não as encontramos disponíveis.

Adorava ver o trabalho da Meljean Brook publicado por terras lusas, ela é a autora da série The Iron Seas, o primeiro livro é o The Iron Duke (inclusive fizemos um episódio dos Diários Steampunk sobre ele). Gostava de ver também o The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling (http://www.goodreads.com/book/show/337116.The_Difference_Engine)(que também fizemos um episódio só dedicado a ele); a Steampunk Trilogy de Paul di Filippo (http://www.goodreads.com/book/show/326917.The_Steampunk_Trilogy) e a série steampunk de Cherie Priest, The Clockwork Century (http://www.goodreads.com/series/43930-the-clockwork-century).

Um conceito que já vemos mais em Portugal, e que adoro (pois possibilita-me conhecer novos autores e experimentar as fronteiras das nossas leituras), que é a Antologia. Gostava de ver algumas antologias que existem lá fora, serem traduzidas e publicadas por cá. Nomeadamente as antologias Steampunk organizadas por Ann Vandermeer (http://www.goodreads.com/book/show/2246092.Steampunk?a=5&origin=related_works).

U. B. C. -Com tantos projetos ambiciosos, que desejas vir a alcançar?
J. N. L. - A felicidade e a resposta à pergunta: O que é o Universo, a Vida e tudo. :)

Sinceramente, quando os comecei não pensei em objectivos definidos. A Clockwork Portugal foi criada para dar apoio e preparar caminho para a Euro Steam Con, dando origem a uma plataforma de apoio e organização para futuros eventos e convergência da Comunidade Steampunk.
De resto, os meus objectivos são muito simples: divertir-me, aprender com as pessoas que conheço e claro crescer como blogger e leitora.

1 comentário:

Paulo disse...

Olá,

Foi com enorme expectativa que vim ler esta entrevista ao ver que a mesma era feita à Jo Lima, alguém que já tive o prazer de conhecer pessoalmente e mesmo que isso não tivesse acontecido sabia que é alguém muito agradável, alias a malta do norte por norma é toda 5*, mas a Jo é mesmo alguém impecável, pelo que só posso desejar que tudo lhe corra bem e não só com os projetos, mesmo com a sua vida pessoal, pois merece.

Por acaso a Sofia tambem é fixe lol.

A entrevista está bem conseguida, não conhecia os blog da Jo e o Steampunk é um género que não ligo muito e por norma nem dou atenção, alias gosto das imagens / fotos que aparecem.

Bem mas isso não é para aqui chamado, parabens pela entrevista, gostei e desejo que o evento dos dias 29 e 30 de setembro corram pelo melhor.

BJS