domingo, 16 de junho de 2013

Opinião: Jesus Cristo bebia cerveja

Autor: Afonso Cruz
ISBN: 9789896721336
Editora: Alfaguara (2012)

Sinopse:

“Parece que a morte vem sempre à tona da água.”, frases como estas marcam o tom do novo e esperado romance de Afonso Cruz.
Com a originalidade que o caracteriza, Afonso Cruz, constrói uma narrativa de personagens singulares e marcantes, numa terra quase imaginária, que é o Alentejo.
Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma histórica comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida, como o amor, o sacrifício e a cerveja.

Opinião:

Depois de ter lido (ou deverei dizer devorado?) Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, fiquei com vontade de pegar num romance de Afonso Cruz. A oportunidade surgiu com Jesus Cristo bebia cerveja.

Obra de ficção, apresenta-nos uma aldeia alentejana, com características iguais a tantas outras.Todas as pessoas se conhecem, todos comentam a vida dos outros, existe inveja e incompreensão mascarada. A entrada neste ambiente provinciano é fácil, devido às excelentes descrições, mas também dura, uma vez que o autor não esconde o lado mais degradante da vida.

O vasto leque de personagens tem Rosa como protagonista. Rapariga jovem que, ao início, parece ser indiferente a todo o que a rodeia. Nascido no seio de uma família pobre, acabou aos cuidados dos avós e, mais tarde, viu esses papéis a serem invertidos. Algumas das cenas que retratam a miséria em que Rosa e a avó vivem podem mesmo chocar, mas tratam-se de um retrato de muitas realidades às quais a sociedade tenta fechar os olhos. Com o tempo, percebemos que Rosa ama a avó e, como tal, toma como seu principal objetivo levá-la a Jerusalém.

Apesar de Rosa não ser uma beleza, a sua juventude atrai as atenções masculinas, nomeadamente a do pastor Ari e a do professor Borja. Aqui, torna-se interessante analisar as diferenças entre estas personagens. Ari é a representação da simplicidade do campo, enquanto Borja é o erudito da cidade.

A narrativa possui altos e baixos, mas não momentos indiferentes. Apreciei algumas as reflexões que são constantemente feitas, quer seja sobre temas mais básicos, quer seja sobre assuntos mais complexos e pesados. Contudo, de um momento para o outro o autor passa para circunstâncias que causam incómodo e que podem não ser bem aceites. Fica a sensação que a trama progride num sentido de degradação, talvez um pouco como a vida humana. O final é chocante e parece surgir demasiado depressa.

O título pode gerar alguma confusão, mas com o decorrer da leitura, o leitor percebe as intenções do autor neste sentido. Afinal, a narrativa mostra-nos que o sagrado e o profano estão mais próximos do que pode parecer à primeira vista.

Terminada a leitura, fica a sensação de que a narrativa não é perfeita, mas que marca, de certa forma. O conceito base é original e a escrita de Afonso Cruz prende pela sua peculiaridade. Jesus Cristo bebia cerveja é um livro interessante e que me faz continuar a ter vontade de ler mais obras do autor.

1 comentário:

João Miranda disse...

Li, apenas, um livro de AC. Para onde vão os guarda-chuvas gerou desconfiança, estava bastante céptico. Mas conquistou-me.

Em breve, opinião aqui:
http://crimeoucastigo.blogspot.pt/
Nasceu na segunda. :)

Vou seguir o blog, gostei bastante. Boas leituras!