sexta-feira, 13 de junho de 2014

Opinião: As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café

Título original: Les Gens Heureux Lisent et Boivent du Café (2012)
Autor: Agnès Martin-Lugand
Tradutor: Rui Santana Brito
ISBN: 9789897021077
Editora: Guerra e Paz (2014)

Sinopse:

Depois da morte do marido e da filha num brutal acidente de automóvel, Diane fecha-se em casa durante um ano, imersa em recordações, incapaz de reagir. Mas, quando já nada parece poder mudar, é precisamente uma dessas recordações que a faz escolher Mulranny, uma pequeníssima aldeia na Irlanda, como destino.
Instalada numa casa em frente ao mar, Diane é gentilmente recebida por todos os habitantes - todos menos um. Será Edward, o bruto e antipático vizinho, a resgatar Diane da apatia em que parece estar novamente a mergulhar. Primeiro, pela ira e pelo ódio. Mas depois, contra todas as expectativas, pela atracção. Como enfrentar este turbilhão de sentimentos? O que fazer com eles?

Opinião:

As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma história sobre luto. A autora, Agnès Martin-Lugand, é psicóloga clínica e decidiu explorar através deste livro as diferentes fases pelas quais alguém passa quando perde quem mais ama. A dor, a revolta e a procura de razões para continuar são alguns dos temas abordados.

O início do livro provoca choque no leitor. A autora escolheu o momento da perda para começar a relatar a triste história de Diane, o que faz com que seja fácil sentir empatia por esta mulher. Ao assistir à forma como Diane reage à morte de quem mais ama, é inevitável pensarmos no que faríamos no seu lugar.Também existe um certo sentimento de frustração ao vê-la a não agir e a punir-se por algo do qual não tem culpa.

Apesar do tema principal ser pesado, a verdade é que este é tratado com alguma leveza. Isto acontece devido a certas personagens secundárias, nomeadamente os divertidos Félix e Judith. Curiosamente são também estas as duas figuras que começam por puxar por Diana e, assim, afastá-la da espiral de decadência.

A grande alteração no estado do Diane dá-se graças ao vizinho que encontro na Irlanda. A protagonista escolheu tal país como refúgio, uma forma de fugir do que lhe era conhecido e assim afastar-se com a sua dor para um local que, de certa forma, a deixava ligada aos entes queridos que perdeu. Contudo, não esperava deparar-se com Edward, um homem fechado, bruto, antipático e rude. O contacto entre os dois faz com que Diane entre em confronto. Isso faz com que o seu pensamento e as suas forças sejam direcionadas num sentido diferente do luto. Desta forma, ela volta a encontrar-se.

O confronto que existe entre Diane e Edward acaba dar origem à componente romântica da história. Aqui, é interessante ver Diana em conflito com ela própria, pois se por um lado percebe que pode voltar a encontrar a felicidade, por outro sente que está a trair a vida anterior e as pessoas que perdeu. A autora conseguiu transmitir bem estas dúvidas.

Apesar de Edward ser uma figura fulcral na trama, a verdade é que passa por fases e transformações que podem não agradar. Ao início, parece demasiado bruto, violento e até perigoso, o que me fez desejar que Diane se afasta-se dele. Depois, de um momento para o outro, muda completamente a sua forma de ser, sendo que a justificação dada para tal não me convenceu completamente.

Ao ler o final, percebi que a conclusão dada pela autora foi um risco e que não iria gerar consenso, afinal, não possui os clichés habituais. Eu fiquei um pouco reticente, mas a verdade é que percebo que esta era a melhor opção. Afinal, vai ao encontro do principal tema, que é superar o luto e refazer a vida. Aquilo que acabou por mais me desagradar foi a forma abrupta como a história terminou, pois parece que ficou alguma coisa por dizer ou por explicar.

Par além de ser um livro bem escrito e que se lê num ritmo rápido, acaba também por funcionar como livro de autoajuda. É um exemplo de que as maiores dores podem ser ultrapassadas, mas que tal não acontece rapidamente, é preciso passar por um processo. As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma leitura rápida e que deixa uma lição.

4 comentários:

redonda disse...

Comecei a lê-lo há dias por isso vim directa para o final e depois volto para ler o resto.
Para já, preocupou-me ter lido uma crítica negativa e parecer-me no início que falta algo na dor dela (sobretudo depois de ter lido o livro de C.S.Lewis penso que com esse título Dor, escrito depois dele ter perdido a mulher.

Cláudia disse...

Eu não acho que exista falta de dor. Na verdade, achei que a passagem por diferentes e reais fases até chegar à aceitação está bem conseguida. Nunca li esse livro de C.S. Lewis, por isso não posso comparar.*

Leitora disse...

Adorei este livro fez-me pensar muito no valor das coisas e das pessoas e gostei muito da forma de escrita da autora.

Nair Furtado disse...

Gostei bastante do livro mas também tive ideia que o final está um pouco à pressa, no entanto entendo a opção por um final mais neutro... adorei mesmo